1 de out de 2014

Homofobia é imã velho de geladeira velha

Por Lísia Maria
Segunda-feira acordamos sob o impacto de certas declarações dadas por um certo candidato bigodudo, durante um debate na TV entre políticos candidatos a presidente do Brasil.
Digo acordamos porque alguns – como eu  - tiveram a sorte de passar batido pela informação deste debate, e estavam se divertindo com a programação de outros canais ou curtindo um livro deitados na cama.
Assim, domingo de noite ou segunda de manhã, nosso queixo caiu e nos percebemos morando em um país onde uma pessoa tem coragem de dizer na TV, em rede nacional, o que aquele “senhor” disse, e qualquer um que tenha sangue de barata ficou, no mínimo, chocado.
Nota: qualquer um não-homofóbico que tenha sangue de barata.
Nem vale a pena discutir os argumentos do tal candidato. E, muito menos, o pequeno apoio que ele recebeu de alguns instransigentes como ele, que louvaram sua “coragem de dizer a verdade”. E muito, muito muito menos, o apoio dos que se dizem “contra a ditadura gayzística que impõe (RISOS) o comportamento gay a uma sociedade de bem”- esses são os mais errados, que não percebem a diferença entre ser politicamente correto demais e ser assassinado por causa de uma escolha pessoal e íntima.
O que vale a pena contar desse triste episódio é a lindeza do apoio de muitas pessoas à comunidade LGBT. Se sentindo mais próximo ou menos próximo, muita gente concordou que o fofo bigodudo passou dos limites, e suas declarações, independente de a quem se dirigem, são uma cantilena de ódio e intolerância, e desse estágio de ódio a humanidade já passou. Hoje o ser humano, salvo algumas lamentáveis exceções, é bastante capaz de conviver, ou ao menos respeitar, o que não é da sua cartilha particular.
Meu avô de 90 anos, que por sua idade e formação tem certa dificuldade de entender coisas que ele não via quanto tinha 25, até ele percebeu o excesso. E veio me mostrar na terça-feira o jornal com a reportagem sobre todo o acontecido, concordando com as medidas legais que estão sendo providenciadas contra o inconsequente candidato.
Daqui uns anos vamos poder contar que no Brasil uma lei que criminaliza a homofobia foi criada justamente com a ajuda de um homofóbico: suas palavras claras e chocantes serviram de alerta para percebermos que com esse assunto não se brinca. Minoria não diz respeito à quantidade, e sim à exposição de certos grupos à violência e à impunidade dos atos violentos, e é dever da maioria – os que não expostos ao mesmo risco – proteger os mais frágeis.
Sorte a nossa que enquanto o aparelho excretor de alguns fala, a gentileza e solidariedade de muitos e muitos se reproduz.