10 de jan de 2015

É lindo demais, minha gente!!!


Quando quem faz compra de quem faz

Há algum tempo tenho vivido as delícias de ser “quem faz”. Apesar de não ser minha única fonte de renda, é algo que faço com muito prazer e cada vez mais ganha força com os retornos que recebo de clientes tão felizes e satisfeitas com suas peças. É realmente gratificante estar nesse papel.
No entanto, tenho percebido também o quanto é bom ser “quem compra” (de quem faz, claro!!!). Já não é mais qualquer peça que me agrada. Hoje em dia, ela precisa ser mais do que bonita, ela precisa ter carinho, energia e cuidado. Eu quero aquele atendimento que vai fazer da minha peça A MINHA PEÇA. Não porque eu preciso de exclusividade, de jeito nenhum, mas porque eu quero que aquele produto tenha a minha cara e eu mereço isso, nós merecemos isso.
Exemplificando com a prática… Dia desses, percebi que precisava de uma sapatilha nova e então, iniciei uma busca, não por lojas de sapatos, mas por produções artesanais na internet. E aí me lembrei de uma marca que fazia sapatilhas de crochê, escrevi e iniciamos uma conversa. Durante toda a negociação eu fui prestando atenção em detalhes que a princípio parecem pequenos, mas quando você olha direito são eles que fazem a diferença. A escolha da cor, das linhas, o contato direto com quem produzirá algo que você vai usar no dia a dia. Ela ia fazer o meu sapato!!! Como eu disse, parece pequeno, mas na verdade, é humano. É como se voltássemos no tempo, livres do pejorativo que a expressão possa ter para alguns, mas no sentido de resgate de uma tradição.
E o que mais tem sido esse movimento da produção artesanal contemporânea, se não um resgate de práticas manuais que ficaram por algum tempo esquecidas e renegadas? Eu me sinto privilegiada fazendo parte desse movimento não só de quem produz, mas também de quem escolhe o que irá apoiar através do seu consumo. Sim, porque consumir se tornou um ato político, eu faço as minhas escolhas e as minhas escolhas me representam (momento confissão: estou muito bem representada pela minha sapatilha de crochê quando caminho com ela mundo afora).
Talvez esse texto fique parecendo utópico, já que sim, existem dificuldades nessas negociações e nos processos produtivos diferenciados da produção em larga escala. Mas comprar de quem faz implica em você desenvolver um outro tipo de consumidor, afinal, você quer carinho, energia e cuidado ao comprar, mas quem faz também quer e merece isso em troca. Taí a delícia dessa nova forma de vender e consumir. As pessoas trocam, além de dinheiro e produto, o respeito ao próximo. Não é lindo viver esse momento? Não é lindo comprar de quem faz? É lindo demais, minha gente!!!